As mudanças do povo Suyá
Em 1959, os irmãos Villas Bôas mandaram um grupo juruna fazer contato pacífico com eles. Os Suyá referem-se a esse período como aquele em que "os brancos vieram nos procurar". Pouco depois, mudaram-se para mais perto do Posto Indígena Diauarum, por sugestão dos Villas Bôas, a fim de receberem melhores cuidados médicos. Foi aí, pouco depois do contato, que foram visitados pelos etnólogos Harold Schultz (também fotógrafo) e Amadeu Lanna.
Em Diauarum eles encontraram seus antigos inimigos: os Juruna, os Trumai e os Metuktire, assim como os recém chegados Kaiabi. Construíram uma aldeia de estilo xinguano e muitos se casaram prontamente com os Trumai. Tais casamentos foram muito diferentes das incorporações anteriores de cativos porque foram os homens trumai que vieram viver com suas esposas suyá. Mais tarde, foram também feitos casamentos com homens juruna e kaiabi. Os suyá passaram a realizar uma série de cerimônias desses outros povos (fotografadas por Jesco). Na década de 60, os jovens passaram a cortar o cabelo em estilo alto-xinguano, o uso de discos auriculares e labiais foi abandonado e as orelhas passaram a ser perfuradas também em estilo alto-xinguano. A morte de muitos homens suyá mais velhos nos primeiros anos que seguiram ao contato foi um fator importante nessa "xinguanização" subseqüente, pois não haviam sobrado muitos velhos suyá e homens adultos para assegurar a realização dos ritos de passagem jê.
A estreita aliança entre os Trumai e os Suyá acabou quando um Kaiabi matou um Trumai que era casado com duas mulheres suyá. Como resultado da hostilidade, os Trumai mudaram-se para o posto Leonardo, consideravelmente mais distante, e os Suyá mudaram-se para uma nova aldeia mais acima no Suyá-Missu. Continuaram a ter estreitos contatos com os Juruna e os Kaiabi, adotando tipos de tecelagem e algumas comidas. Foram novamente solicitados para que se mudassem para perto do Diauarum para facilitar os cuidados médicos e construíram uma aldeia que abandonou todos os aspectos jê e xinguano: não era circular e não tinha uma "casa dos homens". As casas foram construídas com armação e pequenos troncos de árvores em pé no estilo do posto indígena, tendo na aparência uma forte semelhança com as aldeias kaiabi.
Em 1969, em razão de um contato desastroso com os "pacificadores brancos", 41 sobreviventes Tapayuna (ou Suyá Ocidentais, também conhecidos como Beiço-de-Pau) foram removidos de suas terras entre os rios Arinos e Sangue para juntarem-se aos Suyá (que então deviam ser cerca de 65) no Xingu. Mais dez membros deste grupo morreram logo depois da transferência, em razão de doenças. Na perspectiva dos Suyá Orientais, contudo, as semelhanças culturais de ambos os grupos mudaram consideravelmente a ênfase de sua cultura. Os Tapayuna olhavam, falavam e agiam como os ancestrais suyá. Conseqüentemente, os Suyá sentiram-se mais fortes, mais numerosos e com mais vida. No espaço de um ano, uma nova aldeia foi construída no padrão jê, com um círculo de casas em torno de uma grande praça, na qual encontrava-se uma "casa dos homens". Cerimônias jê foram realizadas. Os Suyá e os "novos Suyá", como eles os chamavam, contaram uns aos outros seus mitos e os comparavam; narravam as cerimônias e descobriram em seus relatos inúmeros pontos em comum.
Mas a atitude suyá em relação aos recém-chegados era ambígua. Ao mesmo tempo em que eles eram autênticos suyá, eram considerados "incivilizados" por desconhecerem os costumes e tecnologias dos outros povos do Xingu. Por exemplo, eles não sabiam processar a mandioca no estilo xinguano, nem como fazer ou remar canoas, e falavam de maneira considerada estranha e arcaica, apesar de falarem a mesma língua. Por essa razão, eram tratados com considerável humor e lhes eram ensinadas as novas tecnologias.
Em 1980, finalmente, os Tapayuna se sentiram suficientemente fortes para construir uma aldeia própria, acima da confluência do rio Suyá-Missu com o Xingu, na margem direita deste; ficando entre os Suyá Orientais apenas alguns orfãos e adultos que tinham se casado com membros do grupo. Um Tapayuna, porém, foi morto pelos Suyá e, temerosos de mais assassinatos, os poucos Tapayuna que restaram foram morar com os Metuktire, com quem permanecem até hoje (Cf. Lea, 1997).
Saindo da história de volta à mitologia, a adoção seletiva de traços culturais de outros povos que pontua a história dos Suyá está fundamentada na mitologia desse povo (e na mitologia da maioria das sociedades Jê). Assim como no mito, traços e tecnologias indígenas e não indígenas são também adotadas numa continua apropriação do que lhes parece "bom" e do "útil".
No caso do Alto Xingu, como dito, os Suyá aprenderam boa parte de sua tecnologia, sem, no entanto, abandonar a própria. Logo no começo, eles adotaram as técnicas alto-xinguanas de processamento e preparação da mandioca (provavelmente de um grupo tupi como os Kamaiurá, já que muitas espécies de mandioca e alguns de seus derivados têm nomes tupis). Em razão do convívio com as mulheres waurá capturadas, as mulheres suyá aprenderam a fazer panelas de cerâmica, assim como esteiras para o preparo da mandioca para fazer beiju, mingau de beiju e perereba (mingau do veneno da mandioca).Também começaram logo a usar outras técnicas de subsistência, canoas para o transporte, traços lingüísticos, estilo de moradia, cerimônias, ornamentação corporal e uma grande parte da cultura material alto-xinguana. Em contrapartida, os Suyá nunca deixaram de caçar e comer animais que os alto-xinguanos nunca comeram, a plantar milho e batata doce para uso cerimonial e a produzir artefatos do tipo Jê para cerimônias. Assim, a adoção de traços do Alto Xingu foi bastante extensiva, mas eles dizem ter selecionado as coisas que lhes pareciam bonitas ou úteis, desprezando as outras.
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