As características do povo Kaiabi
Ao contrário de muitos índios xinguanos, os Kaiabi são geralmente bilingües: além de sua própria língua, dominam também o português. Há indivíduos que falam ainda uma terceira língua, no caso de casamentos em outras etnias. Entretanto, segundo os próprios índios, muitos Kaiabi que moram em outras áreas fora do parque não falam mais sua língua nativa.
Até as primeiras décadas do século 20, os kaiabi eram considerados "bravios e indômitos". A comunidade resistiu com vigor à ocupação de suas terras pelas empresas seringalistas que avançavam pelos rios Arinos, Paranatininga (alto Teles Pires) e Verde. Muitos conflitos ocorreram entre eles e seringueiros, viajantes e o extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI), ao longo da primeira metade do século 20.
Mesmo resistindo, pouco a pouco, suas terras foram tomadas e os índios induzidos ao trabalho dos seringais. Depois da extração do látex viriam as madeireiras e a instalação de ranchos de gado. Na década de 50, grande parte da região seria retalhada em glebas e alienada pelo governo de Mato Grosso para fins de colonização.
A Expedição Roncador-Xingu encontrou os Kaiabi nessa precária situação de conflito. Sem perspectiva real de melhora, as comunidades eram deslocadas para áreas dentro de seu território e sua resistência bélica aos invasores não lhes ganhava a simpatia de quem poderia apoiá-los de modo a assegurar uma eventual demarcação de suas terras.
Os Kaiabi encontraram em Orlando Villas Bôas um porta-voz para sua causa e passaram a apoiar os irmãos Villas Bôas na pacificação de outros grupos e no desbravamento da região. O processo de migração do grupo para o Parque Indígena teve início a partir desse envolvimento nos trabalhos da Expedição Roncador-Xingu.
Segundo o ISA, assim como no caso dos Panará, a transferência dos Kaiabi de suas terras tradicionais poderia ter sido evitada. A Missão Anchieta, por exemplo, foi contra a mudança, por considerar possível a luta pela terra Kaiabi, pelo menos na região do Tatuy. Sendo assim, uma pequena parcela da população recusou-se a ir para o parque, permanecendo hoje em uma pequena área que divide com alguns remanescentes da tribo Apiaká, localizada no Tatuy.
Outra pequena parcela dos Kaiabi vive no Teles Pires, em uma terra indígena demarcada no estado do Pará, para onde foram sendo empurrados pela ocupação de suas terras. No Parque Indígena do Xingu, os Kaiabi estão espalhados por diversas aldeias localizadas na região do Posto Diauarum, porção norte do Parque e território habitado anteriormente pelos Yudjas (auto-denominação dos Juruna), Suyá; e Trumais.
A mudança inicialmente implicou em mudanças significativas na cultura dos Kaiabi. Hoje residentes em uma área de vegetação de transição entre a floresta tropical úmida, que se adensa ao norte, e o cerrado, esses índios perderam o seu acesso ao tipo de solo, barro para cerâmica, material lítico, conchas e animais a que estavam habituados em suas áreas nativas, que geralmente dispõem de maior predominância de florestas. Ainda assim, os Kaiabi adaptaram-se bem ao Parque Indígena do Xingu – onde vivem mais de 700 dos 1000 integrantes da etnia. Pouco a pouco, a medida em que a sua população volta a crescer, revertendo os elevados quadros de mortalidade de um passado recente, os Kaiabi voltam a assumir hábitos ancestrais, como na construção de grandes casas comunais.
Fonte: O Estado de S.Paulo (www.estadao.com.br/villasboas/xingu.htm)