Kaiabi convive com o sobrenatural
Na tribo, apenas os homens nascem sem o ai´an (alma), adquirida somente após sua incorporação à sociedade, quando ganham nome

Os Kaiabi concebem o cosmos como dividido em várias camadas superpostas, habitadas por uma infinidade de seres que convencionamos chamar de sobrenaturais.

Há os diversos ‘chefes de animais’, os perigosos ‘anyang e mama’, que roubam as almas dos homens, os heróis culturais (demiurgos), que ensinaram aos Kaiabi tudo que hoje sabem; além dos deuses Ma'it d dos grandes pajés do céu. Todos esses seres povoam os mitos e narrativas através dos quais os Kaiabi compreendem e atuam no universo em que vivem.

Todo humano, assim como muitos animais, possui uma ai'an, conceito que podemos traduzir aproximadamente por "alma". Os homens não são dotados de ai'an ao nascer. Eles a recebem junto com o nome, o que os incorpora de fato à sociedade em que vivem. Os que não recebem esta alma não se tornam humanos, são apenas seres empalhados, um invólucro sem vida, segundo o etnólogo Georg Grünberg.

Os Kaiabis sempre tiveram muitos xamãs. O xamanismo desempenha um papel fundamental no modelo de sociedade ideal concebido por eles. Idealmente, esta sociedade deveria ser dirigida por um chefe velho e aguerrido, cuja ação seria complementada pela atuação de muitos xamãs.

Os xamãs são os intermediários entre o mundo natural e sobrenatural. A iniciação xamânica é tida como uma viagem empreendida por ocasião de uma doença grave ou acidente, um momento liminar entre o nível das realidades cotidiana e sobrenatural.

Os Kaiabi são um povo tradicionalmente guerreiro, como se depreende de suas narrativas míticas, de suas histórias de guerras passadas, de sua vida ritual e dos depoimentos de brancos que com eles tiveram contato.

Yawaci

O mais importante momento de sua vida ritual é a celebração do Yawaci, época em que várias aldeias se reúnem para ouvir os cantos dos guerreiros.

Este ritual estava associado à morte de um inimigo, e posterior quebra dos ossos de seu crânio, sendo condição de iniciação dos jovens guerreiros. Embora atualmente não haja mais guerras, nem cabeças de inimigos, os Kaiabi têm voltado a realizar o Yawaci.

Associações e projetos

As lutas dos Kaiabi de hoje são outras e requerem novas armas. Em 1995 os índios da parte norte do Parque Indígena do Xingu, região habitada majoritariamente pelos Kaiabi, resolveram criar uma associação para defender seus direitos e tentar implementar alguns projetos na área.

Nascia, então, a Associação Terra Indígena Xingu (ATIX), incorporando mais uma entidade ao crescente movimento indígena brasileiro. A Associação conta em sua diretoria com membros das etnias Juruna, Suyá, Trumai, Txikão e Kaiabi, além de um conselho que reúne representantes de quase todas as etnias presentes no PIX.

A iniciativa para a criação da ATIX partiu principalmente dos Kaiabi, que estão envolvidos em vários projetos relacionados com a sustentabilidade ambiental, econômica e sociocultural dos grupos que habitam o Parque.

Kumuná

Dentre estes projetos destaca-se o Kumaná, que deu início às "Escolas de Cultura" e tem por objetivo promover o resgate de diferentes aspectos culturais dos grupos, por meio de incentivo à confecção de artefatos e à realização de festas.

Os Kaiabi estão empenhados também em um movimento de recuperação de suas áreas de ocupação tradicional nos rios Teles Pires e Tatuy. Neste sentido, vêm há vários anos solicitando à Funai a constituição de um Grupo de Trabalho para identificar oficialmente as áreas anteriormente ocupadas por eles.

Cansados de esperar pelo órgão oficial, realizaram por conta própria expedições para avaliar a situação atual de suas terras. Como grande parte da área encontra-se hoje densamente ocupada e devastada, decidiram reivindicar à Funai a demarcação de uma faixa de terra contígua ao limite oeste do PIX como reparação das imensas perdas sofridas com a transferência.

O PIX está se tornando uma ilha verde em meio à rápida e crescente devastação ambiental da região do Mato Grosso. A devastação do entorno tem provocado a ameaça de grandes incêndios, a poluição dos rios dos quais as populações indígenas se abastecem, além de vários novos problemas e desafios. Hoje, os índios estão cientes de que a organização política dos povos que habitam o Parque é a única possibilidade de que dispõem para lutar pela preservação de sua diversidade sociocultural e ambiental.





Fonte: Klinton Senra/Instituto Socioambiental (www.socioambiental.org)
E-mail: kltvs@ig.com.br