Arara: a afinidade com a língua
Origem do nome pode ser a tatuagem facial azul-escura das têmporas ao canto dos lábios

O primeiro contato mais prolongado dos Ikpeng com brasileiros de que se há notícia data de 1964.
O etnólogo Eduardo Galvão, presente a esse encontro, recolheu uma dúzia de vocábulos que lhe permitiram estabelecer a afinidade da língua desse povo com a língua Apiaká (do Tocantins) e o Yaruma dos antigos inimigos dos Kalapalo e dos Suyá (Galvão e Simões, 1965:24).

Ademais, há imensas similaridades lexicais de sua língua com a de diferentes grupos chamados Arara, da região do Baixo Xingu – o que leva a crer na existência de uma língua Arara na família Karib.

Essa língua, no entanto, parece mais próxima de grupos karib do norte da Amazônia (Apalai, Wayana, Trio etc.) do que dos Kalapalo ou dos Kuikuro (ambos karib) alto-xinguanos.

O que se entende por grupos Arara – Ikpeng, Yaruma, Apiaká e Arara – é que guardam entre si semelhanças não apenas lingüísticas, mas relativas a uma série de aspectos culturais, levando a crer que a dispersão de sua ocupação deve-se a separações e diferentes migrações de grupos que já estiveram reunidos.

Há informações esparsas sobre esses grupos, sendo possível apenas elaborar um quadro sucinto de suas principais características culturais, como a centralidade da guerra em sua visão de mundo, sua grande mobilidade, a extrema fragmentação das unidades e a ausência de segmentos sociais para além da família extensa (este ponto, a rigor, na falta de dados sobre outros Arara, só se aplica aos Ikpeng).

A origem do grupo Arara provavelmente é o norte da Amazônia e seu modo de vida é mais terrestre do que fluvial, sua agricultura é diversificada, possui uma tecnologia refinada e um artesanato complexo (primordialmente tecelagem de algodão).

O termo Arara teria sido aplicado a grupos indígenas amazônicos pelo menos desde o início do século XX, e as referências a sociedades que habitam o Médio e Baixo Xingu, designadas Arara, são mais numerosas a partir de 1850 (Cf. Ehrenreich, 1895; Nimuendajú, 1931 e 1948).

É possível que a origem do nome seja a tatuagem facial azul-escura das têmporas ao canto dos lábios, cujas três linhas paralelas evocam as dobras cutâneas eriçadas das penas negras que cercam o olho da arara.





Pesquisa: Patrick Menget – antropólogo, professor da L'Université Libre de Bruxelles. E-mail: pmenget@yucom.be

Fonte: Instituto Socioambiental (www.socioambiental.org)